Por que a fé cristã está se tornando piada na internet?
Contentamento
Sócrates e a alface
A extensão do Homem na rede mundial

E os macacos se vestiram

Um novo tempo
Evangélicos efortless
O bem que eu não quero fazer, faço
O STF e a questão homoafetiva
O velho dogma do pecado
O Lucas matou o Tiago - Uma história de amor e homicídio
Não há limites para Deus
A tragédia das conclusões
O Centurião do século XXI
O Divórcio
O nome de Jesus não é Jesus
O brinquedo de Deus: o mitológico Leviatã
O desgraçado Jesus
No ventre do mar
O folclore babilônico, sumério e judaico

Você ama mesmo?
A Queda da Teogonia Moral
Deus está morto
O que os evangélicos estão esquecendo?
O meu ceticismo - O Deus que está morto
O Jesus que eu conheci
Eleições 2010 - Deitando em berços esplêndidos
Conversa entre amigos sobre sistema
Carta Aberta a Chico Anysio
O que nos leva a idolatrar pessoas?
"
É possível ser feliz?"
A re-invenção da superficialidade
Um caso com o diabo
Ensaios sobre a vida: A vida é uma só
Ensaios sobre a vida: A vida é curta
Pra dizer adeus
Amizade é o vinho da vida
A Teologia relacional da Dúvida
O fim do mundo, eis o futuro
O paradoxo de ser Deus

Jesus não é o maior líder que já existiu
A Reforma
Quem são os excluídos?
Jesus vs Moisés - o duelo de Titãs
O ególatra
Você tem um rei na barriga?
"Eu creio". Como assim? II
A ignorância é a mãe da tolice
A chuva que traz vida
500 anos de Calvino
“Eu creio”. Como assim?
Quem é o maior no reino?
Pastores neopentecostais
Jesus, Filipe e o homem emasculado

Quantas respostas Deus tem para você?

Levanta e anda, mulher de pouca fé!

Minha devoção, minha cura, meu norte.

O amor é sofredor - Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta

Fagulhas do Evangelho - A incrível e deturpada onipresença divina

Fagulhas do Evangelho - Orai sem cessar

A Instituição

Nota de falecimento

Qual a diferença entre o seguidor de Jesus e o religioso?

E Deus criou. Criou? Nossa odisséia

E Deus criou. Criou?

A conversão dum diabo

Por que te abates? Oh alma minha...

O Apocalipse de Joões e Marias

Deus e o ateu

Tapeceiro ou Parceiro?

Quem são elas? De onde elas vieram?

Eu te amo! Amo?

O segundo Sol

Quem tem o poder de mandar gente para o inferno?

Quem são os salvos?

A oposição Samaritana

A fé do Centurião

Minha vida sem música é como um sino que não tine

Relatos sobre a Noite

Carta Aberta: Pare de tomar a pílula!

O evangelho que não é Evangelho

Quem somos nós? (III)

Quem somos nós? (II)

Quem somos nós?

Lula e Edir Macedo

O último discurso de "O grande ditador"

No Mais íntimo Momento De Mim

Vive quem tem amigo

A Humana Tragédia

Quem é maior: O Deus das Escrituras ou as Escrituras de Deus? 

Lewis: sim; Rowling: nunca! Nárnia: Sim; Potter: Nunca!
A Arte nos mostra como somos. Deus nos mostra quem somos!

Minha Dor

Deus e o Tempo

Moral dentro Evangelho ou Evangelho dentro da Moral?

Bem-aventurado é aquele que critica, reflete, protesta, rejeita, contesta e desconfia

Onde estão os filhos de Deus do Brasil?

Judas: no céu ou no inferno?

Você já se matou hoje?

Deus, segundo Deus
Jesus, Religião, Hyldon, Hermes e Ivan

Salve sua fé e volte para o mundo



Sem meias palavras, sem delongas, sem melindres. Nasça de novo. Chega de ascender sem maturidade, lucidez e humanidade. Chega de cumprir o seu papel que só dá orgulho aos seus interesses. Não perca mais tempo. Perder tempo cumprindo agendas que só faz animar a tua rotina é a tristeza do mundo. O mundo precisa que você chore com ele, bem como, sorria com ele. O mundo é belo. O mundo é plural. O mundo é a vida em combustão. É o milagreiro engrenado pela existência. O mundo era você antes de sua clausura em nome da fé.   

Não existe apenas “aquele mundo”, como uma mente corrupta, o mundo que vos falo é a realidade de gentes, como eu e você, de gente diferente, que não pensa como a gente, mas que, assim como a gente, tem o mesmo valor, a mesma carência e a mesma deficiência. Somos todos iguais, apesar de nossa diferença, entendes? Somos interligados com um cordão umbilical, somos da mesma espécie, não somos alienígenas do outro conforme vai se estabelecendo os tipos de crença e descrença. Salve sua fé do exclusivismo. Ninguém encontrou o caminho certo, todos foram encontrados por um único caminho. Vale caminhar cada um conforme a sua consciência, velando-nos apenas, por abandonar as consciências vis para o bem da comum-unidade. A sua é nociva? Com esta pretensão tão anti-mundana e tão cristã?

Não somos incumbidos de manipular o próximo, nem através de lavagem cerebral, nem através de sedução barata. Nem de maneiras sofisticadas, nem de maneiras incomuns. Não somos incumbidos porque não temos este direito e porque somos iguais àqueles que pretendemos manipular. Se houver manipulação, há-se apenas para tirar proveito. Esta é a única justificativa de querer manipular “gente do mesmo tamanho”: poder. Sua fé não pode sustentar um pretenso nepotismo divino. Repito não existe exclusividade. Somos, apenas, filhos exclusivos de nossos desejos infames e sectários.

Talvez seja o caso de olharmos menos para o além com os olhos para cima. Talvez seja o momento de olharmos para o lado e enxergamos o além dentro de todos nós. “Quem olha o sol, sempre acaba ofuscado” – é o que disse Antífolo de Siracusa, personagem criado por William Shakespeare, por volta de 1594, em sua fantástica peça, “A comédia dos erros”. Qualquer fé que aponte para cima nos tornando alienados do status quo, que posterga o bem em detrimento de agendas pífias, que macula o bem em detrimento de dogmas rígidos, que se torna inimigo do bem em detrimento da insanidade, de preceitos funestos e de compreensão minúscula, deve submeter-se a caducidade e fadada ao ostracismo.

Entenda de uma vez por toda: seus trejeitos e vícios de linguagens religiosos não servem para nada, além de dizer sobre o modo que você acredita.  Geralmente, eles apenas apontam para a sua forma doentia de vivenciar uma experiência religiosa, pois eles se tornam, para muitos, a maior expressão de fé, como se adesivar no carro, “propriedade de Jesus” ou deixar a bíblia aberta no salmo 91 em cima da estante, fosse a melhor forma de mostrar para Deus, a sua confiança, rendição e peregrinação de fé. Não. Isso está errado. Você sabe que não é assim, mas desfazer dessas superstições, para a maioria, é perder o sentido da vida e morrer nos braços da covardia, insegurança e medo, atenuados pelas crenças baratas.

É preciso um ato de coragem. De divórcio. De autoimpeachment. É preciso cortar o cordão umbilical com este cais.  Barco a deriva, velas içadas no oceano não-mapeado da vida normal  e simples, já! “Quem pode impor regras ao vento?” (Laion Monteiro) O vento inspira e é inspirado por todos. Por acaso existe quem não sinta o ar em movimento dançando com cadência e colidindo com nossas mesmices de nosso dia-a-dia? Até quem faça das abissais religiosas, o seu leito, pode sentir a dança lúbrica do vento. Assim é o espírito do Deus do Evangelho.

 Não se esforce para me provar o contrário, pois você perde o teu argumento pelo teu esforço em discordar com complexidade e “embasamento bíblico”, algo tão simples e que sempre esteve no mesmo lugar. Ponderado sempre por um cara chamado Jesus. O qual foi, intelectualmente, sofisticado no mesmo grau de perversão que temos dentro de nós, para sabotar tudo o que não queremos fazer e que sabemos que deveríamos fazer. Na real, a capacidade do Homem de se inovar e se surpreender habita na sua demonstração de emular com o seu deus, seja qual for. No fim, religião serve apenas para conceder o direito de qualquer um ser o seu próprio deus, de erguer a sua própria estátua como nos tempos dos hebreus ou para erguer um homem como o seu deus.

O Nazareno veio humanizar o Homem e o povo quer um deus e uma fé que o arrebate de sua humanidade, para cair nos braços de um deus que o torne uma raça superior, uma raça eleita e perfeita. Que bata continência a rigidez de um pensamento e que sacrifique a própria consciência nos pés de uma ideologia nepotista e unilateral. Enquanto o indivíduo se agrupar como sociedade, haverá a distorção da simplicidade e bondade. Ao mesmo tempo em que não podemos esperar nada de bom de nós, devemos ser devotos de nós mesmos em amor e préstimos. Não seremos regenerados por esta práxis horizontal, mas indivíduos sim. No calor humano da bondade de alguns, um indivíduo se cura e se humaniza. Esta é a equação.  

O povo é o ópio da religião


Entrei num onibus blumenauense e sentei no "fundão", já me aconchegando para dormir. A viagem me garantiria 1 hora de sono. Mas para a nossa alegria, no banco da frente, duas mulheres começaram a conversar sobre religião. Automaticamente, comecei  prestar atenção na conversa alheia.
 
Uma delas começou a dizer que deixou de frequentar a igreja do Macedo para frequentar a igreja do cowboy, mais conhecido como Valdemiro. Ela argumentava que com o cowboy, a fé funcionava. Lá ela via as coisas acontecerem. E assim, durante 1 hora as duas definiram fé: uma manobra que torna o Todo-Poderoso, o seu garçom e a igreja que facilitar esta conexão com mais rapidez e praticidade, leva o título de casa de Deus. Igreja com milagre = casa de Deus, igreja sem milagre = cemitério de crentes.
 
O nosso país está sendo impregnado com este conceito. Todo o poderoso e hirto falo teológico, erguido durante séculos, foi substituído pela conversa daquelas duas mulheres.  Este novo parâmetro que está formando os novos cristãos, está transformando a todos em devotos supersticiosos, erguendo uma incrível máquina de poder e dinheiro.
 
Eu fiquei pensando... Existe uma solução para isso? A resposta óbvia me veio: "Não". 
 
Infelizmente o povo brasileiro não é estimulado a pensar e nem a afiar o seu senso crítico. A democracia, além de conceder o direito de todo brasileiro escolher, obter, abster, concordar ou discordar de algo ou alguém, acaba autenticado o direito de ser ignorante e o direito de se aproveitar disso. Ou o contrário, elege a ignorância e o direito de se aproveitar disso para determinar escolhas, referências, preferências e etecéteras. Mas isso já é um outro assunto.
 
O fato de acreditar que existe um Deus não é ignorância. Ignorância é a falta de propriedade e conhecimento que torna alguém suscetível, refém ou "presa fácil" de algo ou alguém. É o desconhecimento que gera uma comportamento limitado ou até nocivo.
 
Se alguém acreditar em algo sem se tornar um parasita de charlatões ou sem tornar uma antítese a sobriedade e lucidez ou ainda,  sem perder as estribeiras a ponto de virar refém de uma ideia que o corrói, o ilude, o empobrece, o emburrece e o afasta de quem pensa diferente, não atribuo a este, o título de "ignorante". Não é o fato de acreditar ou não acreditar que nos torna ignorantes, mas a forma e os desdobramentos. A escassez ou excesso de razão pode definir o alto grau de ignorância quando isto que lhe falta ou lhe sobra, servir apenas para o seu parasitismo, seja na burrice ou na arrogância, de onde provém toda a autodestruição.
 
Voltando ao tema da superstição evangélica que está em voga, entendo que ninguém vai conseguir mudar este quadro, pois não há cura instantânea para isso. Um povo que é erguido, delegando a terceiros o privilégio de processar o intelecto, sempre será presa fácil de algo ou de alguém. Até os que são considerados pensantes se pegam no "eu concordo porque sim", que dirá o anencéfalo funcional.
 
Todos que brotam neste mundo querem ser felizes e por isso, a maioria acata a propaganda enganosa. A lei que sempre fala mais alto é aquela que seduz mais e num mundo como o de hoje, vale mais aquilo que vale menos. Quem oferecer a melhor mentira, vai encontrar alguém que não só paga mas que será fiel até o fim ou até aparecer uma mentira melhor, no caso, Valdemiro.
 
O ser humano sempre teve e sempre terá uma quedinha para as percepções e intuições espirituais, mas ele também sempre será o ópio dessas percepções e suspeições, visto que na ambiguidade do seu ser está a capacidade de tirar proveito e de se entregar cegamente a qualquer vento de doutrina, que no Brasil está com força de Katrina.

Salathiel, o saci nórdico


Salathiel, o saci nórdico
Uma história de superação e resistência – primeiro melodrama nórdico-brasileiro
 
Herói 1: Salathiel, o Demolidor
Herói 2: Thiago, o Cabelo
Herói 3: Moisés, o Moisés

Os três corajosos tinham de cumprir o não tão longo trajeto de 11 km (ida) + 11 km (volta) de bicicleta. Uma ciclovia sinuosa e íngreme. Aos três amigos, um exercício de resistência e uma terapia ao céu aberto em média velocidade, sob uma noite regida pela lua, despida em seu berço ébano. A metade do trajeto foi cumprida. Exaustos, fatigados, descansaram um pouco - um curto hiato de glória - já se colocando ao caminho do retorno; mais 11 km que sempre se torna mais difícil por causa do cansaço.

Quando os três começaram dar as primeiras pedaladas, o pedal direito da bicicleta do Salathiel se parte. Os três param, olham bem para admitir o que aconteceu e começam olhar para os lados como se a resolução do problema estivesse escondida em algum lugar. Olhos e rostos suados se cruzam, se questionando: “E agora, José?”. O dilema estava posto. Podia-se dar um jeitinho? Emendar? Amarrar? Nada. Tentaram pensar em alguma coisa e nada. O jeito era apenas se questionar: “E agora?” sem pensar na hipótese de desistir do trajeto de volta.

Salathiel, como é de conhecimento de seus amigos, é um jovem muito obstinado e corajoso. Não poucas vezes é cabeça dura, cabeça esta que paradoxalmente, comporta inteligência, resiliência e obstinação. Deu os primeiros passos, movimentando a bicicleta apenas com o pé esquerdo, mas sem muito sucesso, pois sem o pedal da direita não conseguia manter o movimento para fazer a bicicleta andar. Tentou se apoiar na barra onde prendia o pedal para movimentar-se, mas também não conseguia muito resultado, muito menos conseguiria encarar os 11 km a frente.

O jovem não desistia. Foi-lhe proposto desistir, mas ele não tinha isso como alternativa. Salathiel se arrastava enquanto os outros dois o acompanhavam logo atrás, olhando o esforço do jovem.  Os dois então se aproximaram e começaram a se revezar nos empurrões nas costas do jovem corajoso. Um empurrava, depois outro vinha e empurrava mais um pouco até que o Salathiel teve a ideia de amarrar o seu pé no pedal esquerdo, fazendo com que facilitasse a movimentação de girar o pedal. Pararam os três e um dos amigos do jovem tirou o cadarço para ajudar na engenhoca.

Deste modo, o Salathiel se sentiu mais seguro para continuar em sua peregrinação. Pedalava um pouco e era empurrado pelos amigos. Os esforços dos amigos, ao empurrar, os deixavam cansados, porém o esforço descomunal do Salathiel era, obviamente, bem maior. Ninguém pensava, ao certo, se os 11 km seriam cumpridos. Simplesmente era feito aquilo que precisava ser feito no momento. Os amigos olhavam para o amigo cansado e dizia “e aí, dá para continuar?”, “vamos, força”. A força que ele tinha de fazer para movimentar a bicicleta apenas com o pedal esquerdo, enfrentando subidas, parecia ser totalmente insuficiente para percorrer 11 km. Fazer o percurso com os dois pedais já era cansativo, imagine com um pedal só...

Os amigos olhavam para ele, em silêncio, desgastados pela teimosia em prosseguir e via um jovem que não se entregava. Em um momento ele sussurrou: “não dá mais”. Resolveram parar e descansar alguns minutos. Retomaram o percurso pela iniciativa do Salathiel, que sempre saia na frente com uma força marcada pela exaustão e dor, enquanto seus fiéis escudeiros faziam a escolta. O jovem, nos altos picos de esgotamento, não aceitava mais ajuda. Toda a concentração se restringia em suspender o pedal esquerdo e pisa-lo para baixo. Os amigos começavam a cantar e a bradar o seu nome. Uma sinergia foi estabelecida naquela noite.  

Num outro momento, enquanto todos caminhavam solenemente, o squeeze da bicicleta do jovem guerreiro cai no chão, sendo “atropelado” pelo pneu traseiro. Ele mesmo olha para trás, desesperado, e diz: “ainda bem que não foi a minha perna que caiu”. Ao cair a ficha do que ele tinha dito, os três param e caem na gargalhada sem fim. Uma gargalhada que não só ri do que foi dito, mas que funciona como válvula de escape daqueles momentos tensos e cansativos. Dizem as tradições arcaicas, que gargalhadas incontroladas são cócegas de deuses que querem aliviar os seus súditos do sofrimento...

A peregrinação faz com que os três percam a noção do quanto eles já percorreram e o quanto faltam. Salathiel se rastejava em sua bicicleta, o seu cavalo mitológico, como um errante do deserto.  Não reclamava mais e apenas soltava risos fúnebres do seu drama, cortado por suores de coragem. Após algum tempo, um dos seus amigos grita: “terra à vista!”. O ponto de largada é avistado como um oásis, um troféu ao jovem Salathis, como é chamado por alguns. Não se tratava de uma miragem. O jovem percorreu 11 km da ciclovia sinuosa e desgastante apenas com sua perna esquerda.

No fim do percurso de volta, os três foram presenteados com um declive de 500 metros. Então o céu escuro se abre como uma cortina de teatro, atravessando numa velocidade estonteante, Odin, em seu pé-de-pano mitológico, arrebatando os três para um mundo paralelo ao som de “Gonna fly now”.  Lá, eles foram imortalizados e o jovem paladino reinou durante toda a sua geração, onde o selo da paz e da harmonia foi estabelecido.

Para deixar um recado ao jovem demolidor, este é o perfil do Salathiel no Facebook. Você pode deixar um recado no blog Mera Palavra. 

O PEDAL QUEBRADO
O TÊNIS SEM CADARÇO
SALATHIEL, O DEMOLIDOR

Sexo antes do casamento


O sexo é um dos assuntos que o Cristianismo faz mais vista grossa: “eu finjo que acredito que você é virgem e você come quieto”.  O “sexo antes do casamento” é proibido com a seguinte lógica: “a bíblia é contra prostituição e fornicação”, “você corre um sério risco em ser vítima de AIDS” e “Paulo disse que é melhor casar do que se abrasar (ficar ardendo em desejo)”.

Essas são as desculpas mais utilizadas. O pobre do Paulo, ao dizer o óbvio, que “...quem é muito espoleta sexualmente, deve procurar alguém para apagar seu fogo e sossegar o facho, pois eu estou de boa, curtindo minha inapetência...” foi entendido como “é melhor casar logo no civil do que transar sem o consentimento do cartório (é melhor casar do que transar enquanto vocês ainda são namorados)” (saca a diferença?). Paulo não criou nenhuma angustiosa lei, ele apenas disso o óbvio “você não agüenta, então encontre alguém”. Paulo recomenda que você encontre alguém para satisfazer-se, por conseguinte, satisfazer alguém. Ao que me parece, nada conflitante, até o momento em que damos outro sentido...

Se lêssemos Paulo sem o encargo oneroso que dá uma interpretação angustiosa, não leríamos outra coisa. Mas com o santo encargo, lemos um simples versículo com a seguinte interpretação: “Não transe. Você pode namorar, pegar na mão e até beijar. Depois de alguns anos, vocês vão noivar, mantendo-se virgens da silva. Nada de sexo. Vocês se amam, mas sexo, só daqui há 4 anos quando sair o apartamento de vocês, e então o cartório e o pastor Beltrano vão casa-los e lhes darão alforria sexual. Todavia, se não agüentar a espera, casem agora e construa um puxadinho no meu quintal dos fundos...”.

O tabu surge quando o casamento deixa de ser considerado a união de pessoas que se amam a partir de quando os mesmos se percebem amantes, para validar-se através de um evento que serve para se afirmarem aos amigos e familiares, bem como realizar um pacto legal de compromissos perante a sociedade. É como o médico, que se apresenta apto para exercer a sua função, porém não a exerce enquanto não possui o CRM. O certificado para a prática sexual é expedido pelo cartório, autenticado pela igreja (ou vice-e-versa?), mediante o CRS (conselho regional do sexo).

Então toda e qualquer transa na fase pré-matrimonial é dada, pelo CRS, a alcunha de fornicação, adultério, imoralidade sexual e etecéteras. Eu entendo que todas essas alcunhas, podem ser encontradas em todos os seres humanos. A libido no olhar, que é laborada no pensamento, provocando desejos e até, finalmente, os aclamados atos imorais, estão em todos os seres humanos em combustão. Adultério ou fornicação estão mais para serem controlados do que evitados, posto que pensamentos libidinosos não respeitam amor e compromisso, apenas os mortos. Se há um ranking entre os seres humanos, é o de quem adultera menos até o que adultera mais. O teu simples soslaios em direção àquelas nádegas que obedecem a cadência concupiscente, fazendo-lhe lamber os lábios, é uma vocação de seu instinto e uma trava no teu olhar hipócrita. E os vídeos? E as revistas? E as conversas calientes nas redes sociais? E as safadinhas conversas no trabalho ou na faculdade?

O ato sexual vira mero objeto disponível ao pecador que adultera com sua própria esposa quando transa com ela sem amor ou quando transa pensando em outra pessoa para manter-se excitado. Parece-me que definir adultério ou fornicação baseando-se nos noivos ou namorados que transam ou no adolescente que se masturba ou no mr. Catra que tem várias esposas é a maior das hipocrisias a fim de não abranger as suas peculiares formas de adulterar.

Quem não é a mulher de João 8:7 que atire a primeira pedra. O discurso religioso deveria partir da ideia de que todos nós cometemos adultério. Seria um ótimo ponto de partida. Daí não trataríamos apenas o outro como adúltero, mas nos nivelaríamos com todos a fim de que um ajude o outro a ponderar-se. O problema não seria em transar com a namorada, visto que, neste caso, a única coisa que é adulterada é a insustentável interpretação vigente de imoralidade sexual. Além disso, todos nós somos imorais e só nos tornamos morais quando vestimos o capuz da hipocrisia. O que pratica sexo por sexo (“uma noite e nada mais”) é só mais um adúltero que assola este mundo.
Você que come com os olhos enquanto anda de mão dada com tua esposa, está na mesma situação que o garoto que está no cio. Tudo é uma questão de idade, comportamento e fase.

Ninguém se esquiva, na linguagem religiosa, de fornicar ou adulterar. Todos, a partir desta visão, são imorais e fazer uma péssima interpretação do que seja Graça, nunca irá conciliar as coisas. Sempre se esquivarão de certas perguntas ou darão respostas franzinas. “Pastor, eu não consigo parar de fornicar. Eu me masturbo, olho o corpo das irmãs e penso em sexo todos os dias”, “tente parar, se não conseguir, ore que um dia você consegue, pois sem santidade, ninguém verá a Deus” “o senhor conseguiu?” “cof, cof, cof, amém meu filho”.

Que nós, os adúlteros, aprendamos, ao menos, prezar e pesar quando assumirmos um compromisso relacional e que todos nós aprendamos que o amor sempre compensa mais que uma vida bandida da música de Chico Buarque “vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor”. Somos seres da mesma espécie. Isso indica que precisamos nos ajudar e nunca nos acusar, pois todos nós somos iguais. Um dia a gente melhora e nos tornamos um adúltero mais recatado e se tem algo que faz melhorar o nosso comportamento e refrear as volúpias dos desejos é o amor e o auto-conhecimento sob um parâmetro lúcido e honesto. Quer que seu filho ou filha se preserve ou pelo menos, seja ponderado(a)? Fale de amor, de relacionamento e seja um exemplo. Não fique inventando padrão impossível e alienígena que o fará dar de ombros a tudo isso. A melhor coisa é ensinar o essencial e o real. Desista do impossível e surreal, pois isso sempre existiu para forjar comportamentos incompatíveis com a nossa natureza, gerando doentes e hipócritas. O evangelho não trabalha com categorias doentias.

E para finalizar, admita: a bíblia não é contra o adultério. Será que você não entendeu que a bíblia é contra você e eu? Todos os parâmetros que ela apresenta servem para provar a nossa incapacidade de ser justificado por ela, porém, para quem ela aponta, habita a reconciliação de todas as coisas. Mas isso é assunto para outro texto...

A vida dos mortos



A milenar tradição judaica narra a comunicação entre um vivo e um morto: Saul e Samuel. A história é bem conhecida, adaptada para não admitir o fato ou defendida para garimpar o “mundo dos mortos”. Produções cinematográficas americanas sempre criaram filmes onde os mortos, mandam recados ou ressuscitam (parcialmente, no caso do zumbi) para o nosso medo e terror.

Imagine como deve ser o mundo dos mortos... Sombrio? Mortos andando de um lado para o outro sob uma nuvem escura cortada por relâmpagos e por fortes chuvas? Ou um lugar florido e cheio de gente feliz como no condado dos hobbits? Será que a história de um portal entre a vida e a morte é transitável?

Não quero transformar este texto em um debate teológico-espírita-cristã. Quero apenas fazer uma ponte imaginativa que liga a vida e a morte. Uma ponte que dê margens para especulações em relação aos anseios, experiências e mitos sobre a possibilidade de vida depois da morte.

Um lugar enorme para abrigar todos os mortos. Hoje temos 7 bilhões de seres humanos vivos? Ok. Quantos seres humanos já morreram até o dia de hoje? Trilhões? Quatrilhões? Já chegou ao quintilhão? Talvez sextilhão? Bem, o mundo dos mortos é inimaginavelmente, mais populoso que o mundo dos vivos. Existem quantos mortos por metro quadrado? Tem algum controle? “Hoje só podem morrer 10.000 no planeta dos vivos, a fim de conter o inchaço por aqui...”

Será que estamos apenas na lista de espera? Um planejamento de expansão, uma infra-estrutura melhor, projetada por governos do além, pode abrir mais covas assentamentos... Já pensou nisso? Sua convocação pode sair a qualquer momento...

O caos deve ser a rotina deste lugar. Vigesilhões de errantes alimentando-se de lembranças, eternizando suas culpas e suas mentiras. As máscaras caindo e mostrando a face desfigurada pelo cansaço, traição e fadiga. Ou não. Um lugar ordeiro, com passarinhos cantores ressurgidos das cinzas, árvores frondosas e um sol que “nunca se apaga”.

Será que a vida não passa de um momento que precede o nada ou será que haveremos de romper a morte? Onde está teu pai? E a tua mãe ou quem sabe, um filho? Ele se foram ou apenas se desintegraram? A existência caminha para o outro lado da cortina, que de tão bem escura, divide opiniões e percepções. Para alguns, a cortina, de tempo em tempo, se abre para um pequeno vislumbre. Nada comprovado. Percepções que nos deixam perplexos e apequenados. Para outros, o nada é tão certo, chegando a secar as esperanças e as perspectivas.

Nós só sabemos que iremos morrer um dia porque alguém nos contou. Nós só sabemos que iremos pro céu ou inferno porque um dia alguém nos contou. Nós só sabemos que iremos nos desintegrar porque alguém um dia nos contou. Ou seja, não sabemos de nada. Só sei que Saul tirou Samuel de sua rede preguiçosa no além. Isso não é saber nada tanto quanto é saber tudo. Um dia eu tirarei a prova real e volto para contar a vocês nem que seja num borro de uma janela, ao lado do borro na Nossa Senhora Aparecida.

Até quando você vai se enganar?




Amigos,
Não existe fé sem obras. Neste caso, a fé se transforma em apenas “espectro da fé”. A vida pautada por argumentos e conclusões pessoais ou coletivas a respeito de Deus é vã. As obras aperfeiçoam a fé. Uma nova consciência que desperta uma avalanche de práxis produz a fé, que é boa fragrância aos narizes divinos. Neste caso, o modo de vida ergue fé.

Rasgue a tua bíblia, considerada por você mesmo como sagrada, para não ler aquilo que você não quer acreditar. O jejum é sinônimo de partilha e acolhimento, a oração anda de mão dada com a esmola e o louvor é irmão gêmeo da justiça. O sacrifício só acontece para dar frutos bons e o amor é o que nos faz pertencer a ele.

As nossas incursões religiosas pavimentam caminhos que a próxima geração vai usufruir. A fé morta é o poderoso lastro que marca a nossa sociedade. Estamos inaugurando o inferno-nosso hoje, para o abrir das janelas das próximas gerações. Até quando você vai se enganar, para não dizer, até quando você vai enganar os outros?

A INEXISTÊNCIA E A EXISTÊNCIA DE DEUS


Ninguém prova a existência e ninguém prova a sua inexistência. Sim, é possível provar a inexistência de algo quando se pode verificar todo o perímetro, atestando que tal coisa não existe (não foi encontrado) ou descobrindo-se de onde saiu a tal ideia, evidenciando a origem do folclore.

- Eu acredito em papai Noel.
- Eu não acredito em papai Noel.
- Por que você não acredita? Você pode provar que ele não existe?
- Você é quem deveria provar que ele existe.

Desconfiar de que haja um deus criador não é ignorância. A metade dos grandes pensadores não eram pessoas ignorantes e não se divorciou do fator deus. A outra metade era ateia, porém muitos morreram descrendo com suspeições: “não acredito que haja um deus, mas, às vezes, olho pro céu e pergunto ‘Você existe? Se você está aí, por que não me responde? ’”

Ou seja, se afirma que não existe baseado na impossibilidade de prová-lo, porém como também não se prova a inexistência, o ateu sensato vive sem crer, mas com a lúcida ideia em mente: “não creio, mas pode ser que ele exista, pois não tenho como provar o contrário”.

A verdade é que  o forte pensamento ateu, em sua raiz, é uma briga com a religião. A religião que tentou provar Deus e, mais, que cometeu barbáries em nome de Deus, se tornou a ignição do ateísmo ativista desses últimos séculos. Ateísmo deixou de ser “não acredito porque nunca vi, mas também não sei se ele não existe...” para ser “Eu tenho certeza que ele não existe, certeza absoluta!”. Ou seja, virou uma espécie de religião, de fé, haja vista o Dawkins, que parece ser o Silas Malafaia às avessas.  

Alguns ateus não agem como religiosos que têm a fé como evidência. Nunca dizem que a inexistência de deus é uma verdade absoluta. Para esses, deus é uma incógnita e nada mais que isso (não deixam de ser ateus por causa de uma interrogação). Esses sabem que, além de deus ser um folclore, patrocinador dos dogmas mais bizarros da história por culpa de “seus representantes da Terra”, deus é uma incógnita que influência toda a humanidade, de todos os tempos e de todos os lugares. E o que é inegável é tratado como “um mistério” e não como uma invenção.

Há um mistério. Admitam os neoateus ou não, existem experiências de forças boas ou ruins que se manifestam na humanidade. Achar que essas experiências são “fenômenos naturais que ainda não são explicáveis”, é dar razão com a mesma proporção do religioso, quando, este, explica o que ele não entende ou entende conforme a sua cartilha religiosa.

Noel é fácil de ser “desmascarado”. Ele não nasce numa tribo remota, no meio do nada. Noel não causa fenômenos inexplicáveis. Noel, em sua versão má, não causa influência negativa e paranormal no indivíduo. A ideia de deus e diabo nasce em todo lugar, até mesmo antes do nascimento da religião nesses lugares, marcando presença com fenômenos inexplicáveis e nunca sendo “uma necessidade que brota do nada na mente do ser humano”. É superficial e leviano achar que a crença de um ser tribal é fomentada por um avião avistado que o fez pensar que se tratava de um deus. A falta de conhecimento é ignorância, igualmente a generalização dos evoluídos em face do ignorante, julgando toda a bagagem vivida dele por um episódio tolo.

Se esse mistério residisse apenas no campo filosófico, não se sustentaria. Se esse mistério fosse apenas teatro e marketing religioso, já teria falido. A “fabricação” de um deus por conta deste mistério, que visa forjar poderes a religião é o deus que concebe este ateísmo absolutista. Reclamam tanto de que a religião é a instituição da tirania e não veem que este tipo de ateísmo se utiliza do mesmo metiê, pois se sustentam no absolutismo ao inverso. O problema está no Homem, que cria um fundamentalismo para combater outro fundamentalismo; cria a verdade absoluta [existência] para combater a outra verdade absoluta [inexistência], tornando os dois lados, lados opostos da mesma moeda. Um diz que prova, o outro diz que prova também.

Não se provou a inexistência de Deus, como se provou a farsa do chupa-cabra. Não se perscrutou o universo, realidades paralelas e todo o multiverso para atestar a sua inexistência e não se pode negar a experiência mística que fez ateus sérios a tratar o assunto como “incógnita”. Isso não os tornou religiosos quando negaram ser ateus absolutistas, macaquinhos de Dawkins.

OVNI – nunca vi. Alguns já viram e investigações apontam como “FATO inexplicável”, ou seja, aparição não identificada. Posso dizer que só ignorante acredita? Posso vestir camiseta dizendo “sou ateu, graças ao et”? E em contrapartida, posso anunciar que os óvnis existem e que devemos todos nos converter a eles? Posso dizer que os óvnis não gostam de corintianos? Posso dizer que óvnis querem que todos sigam o padrão moral que ele determinou? Ou não seria óbvio eu concluir que óvni é uma incógnita?

O ser humano não se torna melhor emplacando uma verdade absoluta sobre outra verdade absoluta. Deste modo, ele apenas continua o mesmo. Tanto é que as maiores e melhores críticas vêm dos seus próprios currais: ateus críticos do ateísmo, religiosos crítico da religião.  Quando um se coloca em pé de guerra contra o outro é porque as partes já se absolutizaram (releia o exemplo do óvni).

Quando existe briga entre ciência e a ideia de deus? Quando alguém se utiliza por conta própria da ciência para digladiar contra a religião e quando alguém se utiliza por conta própria de deus para digladiar contra o ateu. Dois tipos de crentes e dois fundamentalistas. Os dois se colocam como embaixador da ciência ou de deus para atacar um tipo de pessoa; nunca deus ou a ciência, sempre o religioso ou o ateu.

O atrito entre o ateu e o religioso é de longe, válido. Se toda a fé cristã se resumisse na práxis da madre Teresa, que viveu em favor dos carentes do planeta, não haveria um ativismo forte para provar que Deus não existe e para acabar com a sua fé. A fé da madre seria louvada por ateu e por qualquer outro religioso. O ateísmo nem existiria. Existiria apenas o “atoa”... “não acredito que exista um deus, mas se esse deus da madre existe, o cara é gente boa”. Não haveria ódio e nem surtos de “certeza de inexistência”... Haveria apenas, um mistério admirado pelo bem que ele causasse em seus fiéis e pelo fato de que existem coisas que acontecem e que não se explica.

Quando a opinião é defendida com energia [quase atômica] é porque ela já virou uma verdade absoluta e cega, seja ela religiosa ou cética. 90% do seu teor é apenas um esforço intelectual para sucumbir o outro. Toda interrogação e mistério vira exclamação e obviedade para minar o seu opositor. Interrogação vira sinônimo de fraqueza e a certeza de que o universo conspira conforme tal opinião vira inteligência.

Alfaces na cadeia alimentar medindo o tamanho do buraco negro com seus polegares...

O ÓDIO



Você odeia alguém? Não digo ter raiva ou mágoa... Refiro-me a um sentimento de prazer na vingança, na punição, alimentado dia-após-dia, que te faz planejar com ajuda do tempo, da frieza e da criatividade. Só perde o tempo que seja uma pausa em relação ao intento do ódio.


Francis Hime e Chico Buarque, em uma de suas músicas, de passagem, esbarraram no que seja o ódio: “...E me vingar a qualquer preço/Te adorando pelo avesso...”. Sentimento este, que é o inverso do amor. Uma capacidade tão excitante quanto o amor. Tudo se maquina, se espera, tudo suporta...


O ódio se torna o prazer da vida - a locomotiva -, por isso qualquer preço pode ser pago, como no amor, afinal, que é o ser humano a não ser um ser que busca, a qualquer preço, a sua satisfação ou a realização do seu prazer? Amar ou odiar é um prato cheio para nós. Quem sabe o que é amar, intui o que é odiar e vice-e-versa.

O ódio faz o bem (ao que odeia) que se espera. É um troféu, uma consumação implacável de seus desejos mais íntimos. É o onanismo do afeto negativo, aflorando nos poros, o ardor que poucos se agradam e isto se torna a diferença das polaridades dos sentimentos (amor e ódio): no ódio, se manifesta o jeito de perder-se em si mesmo – contra a vida; no amor, se manifesta o jeito de perder-se fora de si – em favor da vida.

O DESIGREJADO


Igreja é mais uma ambiência social. É um lugar onde pessoas se encontram com uma finalidade transcendental, que se sustenta na experiência humana afetiva correlacionada e compartilhada. Não é casa de Deus, de fato, uma minoria afirma que o é, mas a maioria dos igrejeiros sabe que o Deus da fé dela, não habita em templos. Por outro lado, muita gente diz que tem fé em Deus, mas nunca pisou numa igreja e nunca se inclinou aos dogmas e ao labor teológico. São pessoas que dizem que têm fé, mas vivem conforme sua consciência (ainda que influenciada pela cultura sócio-religiosa), quando na melhor da perspectiva, “não fazendo a ninguém aquilo que ela não gostaria que alguém fizesse a ela”.

Durante muito tempo existia o crente e o desviado. Quem estava dentro da igreja era crente, quem caia fora era desviado. Mas não bastava apenas estar dentro da igreja para ser crente, teria que seguir a risca os mandamentos locais, já, quem estivesse fora do aprisco, não tinha meias palavras, era do mundo. Não ser membro de uma igreja, era sinal de deficiência espiritual, que convertia a pessoa numa leprosa moral. O melhor dos antídotos da manutenção da boa fé da cristandade era o de se afastar dos infectados pelo mundo. Ainda é assim, mas esta visão vai mudando aos poucos.

Começa-se então a mudar a visão reducionista dos chamados “filhos”. Filhos de Deus eram apenas os crentes que se ensamblassem nos padrões da igreja institucional. Uma minoria, com grande medo de estar pecando, já encara a ideia de que ser “filho”, não é ser dogmatizado pelo Cristianismo: “um índio não-cristianizado pode ser seu ‘irmão’”. Já aceitam que “não precisa ser cristão para ser cristão”, o que equivale dizer: “não precisa ser cristão-catequizado para ser um filho de Deus”. Desta forma, a mesma lógica predomina-se na ideia de “comunidade da fé”, onde o próprio seio familiar ou grupo de amigos pode ser esta comunidade (igreja). Em hipótese alguma, esta compreensão e realidade podem comprometer a igreja convencional, pois como disse no início, a igreja é uma ambiência social poderosa, com capacidade de influência, para o bem e para o mal. É ótima contra o tédio, solidão e tudo mais com o que o ser humano se aflige, mesmo a despeito de ser, também, uma grande fábrica de alienados, infelizes, desesperados e bitolados.

Desigrejado é o termo usado para quem decide seguir “carreira solo” em detrimento da membresia e convivência institucional, mas isso perde o seu significado, etimologicamente, quando o mesmo se considera igreja como um estilo de vida, ideia subvencionada pelas próprias Escrituras. Um “igrejado” no seu meio social, onde ele delimita seus vínculos (família, escola, trabalho e etc) ou vai se deparando com eles na jornada de sua vida, tendo como dogma, o afeto vital para a boa convivência e préstimos. Desigrejado virou uma designação para quem se afasta da igreja convencional, sendo que, na real, desigrejado é o indivíduo que se afasta do espírito afável e doce que lhe é proposto todos os dias, em função de uma mente corrompida e um coração abjeto. Por conseguinte, na igreja convencional, está cheio de desigrejados, assim como em qualquer perímetro social deste mundo.

Vale dizer que muitos já não engolem os esforços intelectuais para convencer de que a igreja convencional cristã é o único ambiente que comporta os “trigos”, com seus joios indissociáveis, o que equivale a dizer que o tal celeiro não é patrimônio da religião abraâmica. A igreja institucional, já que existe, deveria ser apenas um megafone de amor, não para angariar seres humanos, mas para prezar pela vida e pelo seu bem-estar e aqui me faço valer dos princípios da revolução francesa, princípios que dariam nobres matizes a ela: Liberté, Egalité, Fraternité. A igreja convencional poderia e pode ser salva quando ela deixa de ser meretriz para acolher meretrizes, deixa de ser doentia quando consola os doentes, deixa de ser um cárcere quando visita os encarcerados, deixa de ser miserável quando abraça os miseráveis. Ela seria uma ambiência social incrível, mas nunca exclusiva, pois nada se torna exclusivo por ser bom e caridoso. Nada ganha concessão divina para representar Deus na Terra ou ainda, poder de falar em nome de Deus, por ser humana e misericordiosa. Não acredite nisso, não acredite que só na igreja convencional o bem é encarnando e compartilhado, pois isso é apenas mais uma falácia dos santos do pau oco. Um cardume abissal pode ser mais interessante.

Estou fora da igreja convencional há alguns anos. Longe. Pretendo nunca mais voltar. Tenho asco de sua perversão e tenho a plena consciência de que ela é uma construção hegemônica do ser humano por entender que o reino de Jesus poderia ser pavimentado, sistematizado e ilhado. Contudo, defendo o direito dela existir, mesmo que ela não seja um projeto, especificamente, engendrado por Cristo, mesmo que ela não tenha sido o XBox esperado pelo menino Jesus. Até a recomendo para algumas pessoas. Acredito que ela pode servir a Cristo e ser luz no mundo, praticando a justiça do bem. Minha igreja é minha família e meus amigos. Isso se estende no projeto que desenvolvo, onde sigo meu caminho me deparando com o assombro da presença Dele nas curvas e nos soslaios da cotidianidade. Uma chuva pode ser o ministério do louvor, um sorriso de esperança de uma criança abusada pode ser a melhor pregação. Minhas frustrações já não são demônios a serem escalpelados pelo suor pentecostal e minhas alegrias já não são testemunhos para angariar fiéis.

O corpo de Cristo é formado por gente e todo formato que surge como consequência de desdobramentos históricos e que ergue corpo, forma, sistema, controle, tradição e política, deve subsistir sob o pacto de valer a pena em favor do bem. É fazer valer para o bem, o monstro de laboratório. O que está em expansão não é a classe desigrejada, e sim a autonomia da igreja; do templo feito de carne. Autonomia esta, não em relação ao espírito do evangelho, mas em relacão a um tipo de ambiência. É a era do desvínculo daqueles que seguem a Cristo longe da igreja convencional sem se deixar de ser igreja. Esses seguem no seu caminho, flertando com tudo que faz o bem no seu percurso de vida. Religião é inerente ao Homem, pois religião, segundo São Tiago, é a compaixão na práxis; um estado de espírito que gera atos ínfimos quando ao mesmo tempo, gigantes. Agora pertencer a instituição que se apropria da fé, não é inerência, é sedução em grande escala e na melhor das hipóteses, é uma escolha para participar de uma ambiência social conveniente.  

Tudo bem, podem me chamar de desigrejado, mas "há controvérsia" e que também não tirará o meu sono do meu berço nômade, nas trincheiras donde a vida acontece, em sua crueza, nueza, e beleza.

O FILHO DO MUNDO


Um pequeno conto cotidianista
Baseado em histórias não tão irreais


- Pastor Jerônimus, faz-me rir... – grita aos gargalhos, o jovem Thiago. - Não é possível conciliar o mundo de hoje com a tua visão, o senhor parou no tempo com sua lista moral, de interpretação insustentável – esbraveja Thiago, gesticulando suas mãos.
Numa cidade do interior de São Paulo, o pastor de jovens, Jerônimus, tenta convencer Thiago a retornar para a igreja evangélica, a pedido de sua cobiçada mãe; “irmã Estela” - viúva e de belas curvas -, sonho de consumo do pastor.
- Thiago, isso é rebeldia! Deus não se agrada de quem se rebela! Prometo que se você voltar, darei seu cargo de volta. Quando você toca aquele teclado, saem fogos de seus dedos! – arremata com “maestria” o pobre pastor acuado.
- Menino, senta e escute o pastor, respeita o homem de Deus! Você quer que caia uma maldição sobre você? Amanhã é dia de vestibular, vai perder a bênção? Menino ingrato! – grita a irmã Estela da cozinha, onde prepara um manjar dos deuses para ser vendido na cantina da igreja. – Você nunca se perguntou o porquê de sua tosse que não pára? Hein? Como seu pai faz falta! Você iria amarrado para a casa de Deus!
- Era só o que me faltava, Deus mandar castigo! Onde vocês leram isso?
- Só cego que não vê, menino, lembra da dona Camélia? Teve a perna amputada depois de atrasar os dízimos!
- Calma irmã Estela, talvez o que aconteceu com a irmã Camélia não tenha sido castigo. Temos que pedir discernimentos para Deus a fim de obter uma resposta. Lembre-se que Deus é misericórdia. Porém Thiago, você não lê a Bíblia? Castigo é bíblico viu? Ezequiel disse “E porei fogo no Egito; Sim terá grande dor, e Nó será fendida, e Nofe terá angústias cotidianas.” – o pastor faz uma cara de autoridade como se tivesse fendido a terra e rasgado o mar – não vês que o nosso Deus É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, que abate o exaltado e nos coloca em lugar de honra?
Irmã Estela, coloca o pano de prato no ombro, entra na sala e diz:
- Pastor, a culpa é desses rabos de saia que levaram meu filho pro mundo. Esse menino só quer saber de balada e de música mundana! Só escuta essa... Gagá... Lady Gagá, pastor! 
- Mããe, não vamos brigar, ok? A senhora mandou o pastor vir falar comigo e eu topei recebê-lo, agora a senhora podia me poupar, pelo menos hoje, da ladainha de todo os dias! Posso continuar a conversa com o pastor? – indaga a menino com sua orelha vermelha. - Pastor o senhor tem certeza que isso é suficiente para pregar que Deus se vinga ou castiga? Pelas barbas dos teus profetas, nem nas festas privadas do carnaval carioca eu ouvi tamanha blasfêmia!
- Menino do céu! Por onde você anda?!? – interrompe sua mãe, batendo com o pano de prato na cabeça de Thiago.
- Calma irmã, não perca o rebolado, irmã! A mulher sábia edifica sua casa! 

- Esse menino está freqüentando a casa do diabo, pastor!
- Mãe, a senhora me viu saindo desta cidade esquecida para pular carnaval no Rio de Janeiro? É só um modo e dizer, mãe! E outra coisa, pastor, Moisés disse “Não usem roupas feitas com dois tipos de tecidos” e “Não cortem o cabelo dos lados da cabeça, nem aparem as pontas das barbas”. Então, o senhor está em pecado, pastor, Deus vai castiga-lo! Por que o senhor não consegue comprar um carro melhor? Porque o castigo de Deus para sua vida é este fusca velho que o senhor tem! Por que o senhor vive se lamentando de não poder comer mais açúcar? Castigo! Por que sua casa tem goteira? Castigo!! E na melhor hipótese, vamos orar para pedir discernimento, né pastor? Vamos confirmar se isso é castigo da pobreza ou apenas pobreza!
- Thiago, vá pro seu quarto! Agora!
- Thiago, não dá para conversar com você, você é radical e está com a mente virada pro mundo!
- Pastor, os teus julgamentos só servem pros outros? Não gosta do sabor do seu veneno? O senhor vem na minha casa querendo dizer que Deus está triste comigo e que poderei ser castigado por ele e não toma para si a mesma medida de julgo? O senhor está em pecado, lembre-se! Pois nem barba o senhor tem!!
O pastor contrariado, não conseguindo olhar mais nos olhos de ninguém de tanto nervoso, despede-se dos dois, abre a porta e saiu esfumaçando pelo caminho, pisando no cocô de um vira-lata qualquer.
O menino do mundo corre até a porta, vê aquela cena enfezada e grita:
- Pastor, olha aí a confirmação do teu castigo!

Tão amigos, nem tão amigos


Você se doa, você se gasta, você ergue, você lembra, você oferece ombro, você tira do poço, você faz companhia no poço, você joga um pouco de luz no poço, você tenta não levá-lo ao poço, você se lamenta, você se indigna, você compra a briga, você descasca o abacaxi, você paga o pato, você entra na frente, você divide o ônus, você enxuga as lágrimas, você perdoa, você tolera, você respeita a privacidade, você dá espaço, você inclui as mudanças, distâncias e fases, você só escuta, você só fala, você ensina, você abraça, você agradece, você aconselha, você observa, você conhece, você subentende, você compreende, você saca, você percebe, você acompanha, você se faz presente, você quer estar por perto, você influencia no modo e estilo de vida.

Você não é ingrato, você não esquece, você não ignora, você não subestima, você não tira proveito, você não descarta, você não é tão impaciente, você não se fecha, você não desperdiça afeto e cuidado, você não se sente suficiente, você não toca sua vida livrando-se do amigo, você não o fere pelas costas, você não é incontinente nas chatices e desentendimentos, você não tapa os ouvidos, você não ofende, você não desrespeita, você não agride, você não humilha, você não o troca, você não o sufoca, você não abandona, você não o diminui, você não foge, você não se esconde, você não evita, você não reduz nada que seja sincero, você não se faz ausente no dia fúnebre, você não menospreza a dor alheia, você não se torna alheio ao momento alegre, você não quer o mal, você não quer distância, você não decide dar um passo a mais sem reconhecer que a presença de um amigo é vital para os dias difíceis, para os dias insignificantes e dias significantes.

Amizade não tem prazo de validade e não é exclusividade de quem é novo. Quando o adulto não cultiva amizade é porque este indivíduo a substitui totalmente por um sofá de preguiça, pelo seu trabalho enfadonho, pelos seus filhos que o abandonará e pelo seu cônjuge que o ama e lhe dá sexo, flertando com o tédio até o dia em que se é vencido por ele. Pense em 10 velhinhos. A maioria pagaria para ter um amigo com quem conversar. Muitas coisas passam, outros permanecem, porém, os amigos são imprescindíveis em todas as fases. Espertos são as crianças e adolescentes, que veem os amigos como o parceiro para descobrir e mapear o mundo!

Sou amigo de contáveis amigos que ainda contam comigo tanto quanto conto com eles. Nunca me livrarei deles, mesmo levando em conta que nunca se deve dizer nunca, - como uma forma de cuspir para o alto -, e pelo qual não me intimido, pois se um dia eu me desdizer, e mentir, e me livrar, sempre será um lapso, uma exceção insana sobressalente, que me faz perder a noção daquilo que seria a minha salvação, tanto quanto está posta para qualquer um, como sua salvação. Meus caros, na fronteira entre o tédio e a transcendência distingue-se o grau de afinidade com os seus amigos. Um bom amigo pode ser a salvação de sua família e de autoestima.
João era cego. Pedro não. Juntos, formaram uma dupla de amigos inseparáveis. Pedro guiava João, sempre. Pedro se casou, João não... permaneceu só, mas amigo de Pedro. Os dois envelheceram. Pedro ficou viúvo e tocou sua vida guiando João. Pedro, devido uma doença em sua idade avançada, também ficou cego. João, a partir daí, o guiou até a morte.

A vida dá dessas... Não sejamos néscios, maus e mal-agradecidos. Cuide deles, cuide delas.