Relatos sobre a Noite





Noite intensa, ofusca o que existe numa absorção de luz e de repente, o dia transveste-se de trevas. Numa órbita de escuridade, sob o notívago satélite natural, este mar de sombras, traga-nos num silêncio reverente. Vitrine sombria e palco do acaso, seu negro véu varre nosso solo e nosso firmamento. Trás consigo, incontáveis cenários ideais àqueles que são rendidos à sua maestria em pintar o pano de fundo do mundo. Há quem ganhe álibi para dinamizar a vida, audácia para cometer delitos, estímulo para amar, subsídios para se desenvolver ou crescer, quietude para refletir ou apenas, sono para dormir. Sua temperatura é mais amena e em suas eiras, os ventos sopram em leves aragens figurando, invisivelmente, a sua dança vaidosa, sutil e magistral. São nos galhos e folhas das árvores, que elas, as brisas, combinam movimentos cadenciados, distribuindo seu charme e sua irresistível sedução aos seus pares nesta dança intensa.

A dona flora não hesita aos galanteios dos ventos.E tu, oh noite, é quem cedes teus átrios para tal enlace, todavia sempre de modo natural, sem exigências e sem intromissões, apenas resguardando a dança sincrônica do vento e da flora. Associam-te com muitas coisas más. Coisificam-lhe desde a um mero sentimento de tristeza ou uma analogia de uma fase ruim da vida, até um signo atroz, que se revela num caráter, numa nação, num período, num regime ou numa cultura. O Homem, oh noite, de quando em quando e em meio as suas escuras e densas cortinas, encontra cobertura para engenhar seu leito de intenções e, por conseguinte, obrar atitudes das quais não realizaria nas entranhas do dia por uma questão de conveniência. E é por isso que por vez e outra, no refulgir do sol, este mesmo Homem, acorda com um grande ônus nas costas ou com um belo sorriso no rosto.

Muitas emoções, desejos, acontecimentos bons ou ruins, intensos ou irrelevantes, são provocados, excepcionalmente, entre as suas paredes e são entre elas que ficam mobiliadas muitas construções recônditas e comprometedoras do ser humano. Tu chegas ao final do entardecer desfigurando as cores impressas pelo sol em tudo que enxergamos, reduzindo o brilho, modificando o contraste, transformando o metabolismo de seres viventes e dando uma outra visibilidade aos nossos olhos que não cessam de captar as novas colorações e sombras. Em ti, pessoas têm medo de que algo ruim vos aconteça. Têm insegurança e desinteresse. Então, muitos não te olham, não te curtem, não vêem graça em tuas trevas e não vêem vida em ti. Dormem para evitar a noite. Dorme para acordar nos braços do dia. Treva e dia não são o inverso de nada. Treva e dia são fenômenos daquilo que se há como sendo um, porém sofrendo a mutação constante em si e que irrevogavelmente, implica efeitos existenciais em tudo que se é abrigado dentre suas eiras. Sendo noite e dia a mesma manifestação que aflui no espaço do tempo, diferenciada apenas por suas características peculiares, noite e dia não são antípodas entre si em nada, e o que as diferencia, são as suas belezas ímpares que cada qual tem.

É por essas e outras, que tento diariamente compreender tudo o que acontece e tudo que se deixa ser influenciado pelas privatividades de cada fase do dia e da noite. Neste guarda-chuva de dia e treva, tudo oscila e tudo ganha novas formas. Nasce e morre sonhos e realidades. E tudo que o tempo espera, é que assimilemos que “longe se vai sonhando demais, mas aonde se chega assim?”, como canta “Bituca” (apelido do mestre carioca de coração mineiro). A vida deve ser exaurida até a última gotícula de força, afinal “a vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim...” [ainda Bituca...]. A vida é um mar que corre sob e entre a noite e dia. Tudo passa, permanecem-se poucas coisas, muitas outras se esvaem e o que permanece, é o que será eternizado em nós. Assim como águas correm em seus afluentes sem nunca mais voltar aos seus trajetos passados, somos induzidos, mesmo apesar de todas as lembranças e repetições que vivenciamos diariamente, a depositar em seus berços de ostracismos, coisas velhas, registros abandonados e atitudes superadas.

Nada acontece fora de seus arraiais, oh noite, nada escapa... O que tem de acontecer, acontece debaixo de teu teto ébano. Tu és inevitável não porque tu és algo que acontece em nós, por causa de nós ou ainda, por nós. Tu és inevitável porque nós “acontecemos” em ti. Ainda que andemos sob tuas mãos negras sem enxergarmos um palmo a nossa frente, ainda sim, não podemos depreciar sua soberania, pois o que torna a escuridão, um problema, são as nossas imaturidades, egoísmo, petulância, engano ou apenas, nossas fraquezas e limitações humanas.
Esta é a realidade que nos envolve. Somos concebidos nos átrios de trevas assim como somos concebidos nós átrios do romper da aurora. A vida reflete e impregna-se com tudo o que acontece debaixo deste firmamento, inclusive com aquilo que é proporcionado por tu em nós. Quero apenas ter força e sobriedade para guiar os meus passos em qualquer manifestação do tempo ou do espaço de tempo até o fim, ainda que suas multiformidades de se apresentar em nossa volta, reflita, intrinsecamente, em homogeneidades de características de natureza a ponto de misturarmos o que nos envolve com o que sentimos ou passamos.

“Um dia faz declaração a outro dia e uma noite mostra sabedoria a outra noite”. Salmo 19:2

Abraços

3 comentários:

Um vai e vem... disse...

...O homem pode destruir tudo, menos o dia e a noite! (um bom amigo comenta).

Neste paraíso ofuscado pelo tempo e não pelas cores que pintam-no, se faz a existência de milhares de seres, vivos e não-vivos. O ser é algo existencial para uns, e o vazio para outros. Na filosofia Taoísta são estes dois elementos que regem o tempo e o tempo no espaço, a existência e o vazio, pois, sem vazio não haveria existência, não teria ocorrido para os cientistas o fênomeno do BIG-BANG, não nasceria nossas memórias expressas no tempo, a tal arqueologia, paleontologia que vos diga.

O tempo não é nada mais, nada menos do que o agora. O momento é o agora e se bem vivido, digo experimentado, vivenciado, dedicado, será expresso na memória, não a memória localizada no Neo-córtex, mas sim a memória afetiva, que também não está em nossos corações (isso é metáfora), está em nossa espiritualidade, em nosso "paraíso" que ofuscamos com a mão das trevas e o sorriso do dia SOL.

Quando amamos as nossas experiências de vida, intensificamo-as em nossas memórias "espirituais" e expressamo-nas no tempo, no hoje, no agora, no momento. Este sentimento é carregado pelos ventos, pela pluma mais flácida que não quebra diante a brisa dos galhos, sonhos ou ares devaneios. Conduzimos sem controlarmos o seu destino. Nossos sonhos são de todos, pois são expressos no tempo-espaço que não habitamos sozinhos, estamos sim interdependentes mas interconectados com tudo, na busca da harmonia "equilibrio dinâmico" onde os fluxos que inflitram nossos desejos, ocasionam em esperança e dignidade.

Vamos fluir sem perceber o resfriado que nossa mente nos comete.

Revolução é viver por todos, por UM!

NAMASTÊ "O Deus que há em mim saúda o Deus que há em você"

Ghernandes disse...

Grandes são as obras do Senhor!!
Deus abençoe
www.thepescador.blogspot.com

Layde disse...

Com essas palavras, consegui SENTIR o que eu li. Parabéns Moisés.