Minha devoção, minha cura, meu norte.


Desculpe-me Proust e Jorge Luis Borges, vocês terão de esperar. Tenho um encontro marcado. Lacan e Thomas More, esperem também. Encontrarei-me com quem tem todas as respostas, mesmo que ele não me responda conforme meu desespero...

Mario Vargas Llosa, me desculpe também, mas terei de adiar o nosso encontro, preciso me dispor para aquilo que “ele” irá dizer, e só a presença dele diz muito.
Leibniz, Brecht e Kant, concordo com vocês, mas com quem vou me encontrar é o único que tem o poder e capacidade de validar tudo e todos conforme cada minúcia de idéia, de pensamento, de reflexão.

Marx, preciso dizer a você que o lugar mais seguro da Terra, é o quarto, meu leito consagrado por aquele que consagra algo através de um joelho no chão, lágrimas nos olhos e um coração ardente em oração e súplica.

Tolstoi e William Blake, vocês tem razão, a liberdade é o marco divino e não posso negociar o encontro com o divino ao romper da aurora de todas as manhãs. Saramago, os anjos anunciam que o rei dos reis está sentado ao lado de minha cama, em pé, na porta do banheiro, onde, jogado ao chão, o invoco com a certeza de que somos mais do “lado de lá” do que do “lado de cá”, ou “ele” é mais do “lado de cá” do que do “lado de lá”.

Montaigne, meu amigo, é bom lê-lo, porém minha alma anseia em ler mais aquilo que ele mesmo diz “apontar para ele”. Quanto mais leio, mas encarno os conselhos, os gestos, os “parece-nos bem ou conveniente”, as pisadas. John Locke, como eu posso esperar que Deus me ajude, passe comigo no “vale” e esteja sempre perto de mim a ponto de eu sentir seus carinhos, seus sussurros, sua proteção, sendo que me relaciono apenas intelectualmente e de modo afirmativo?
Se acordo pela manhã, sua presença ao meu lado, é indiferente. Se trabalho, estudo ou vou a igreja, sua presença não me é pessoal, íntima. Como posso dizer que “ele” é meu melhor amigo e “socorro bem presente na hora da angústia”?

Thomas Merton, responde essa: de que vale dizer que creio se creio o suficiente para apenas dizer que creio?

Clarice Lispector, nossa prosa ficará para depois. Minha alma me impulsiona para buscar com devoção o abraço daquele que nos salvou e que nos remeterá, de glória em glória, a renovação de todo entendimento, suprindo toda expectação, nos colocando como expoentes perfeitos conforme a sua semelhança.

Adélia Prado, teu bolo de cenoura fica para amanhã. Não sou um alienado da realidade, porém tenho um espírito na eteriedade e quando me deleito em meu momento devocional, me sinto um “grande dependente” dele. Minhas forças, minha alma se entregam a ele. A ouvidoria divina se condiciona com o meu clamor. Pura presença divina em meu quarto.

Sr. Tesla, meu caro amigo, o portal metafísico presencial se abre com a chave de ignição que se existencializa segundo a minha franqueza, a minha honestidade, a minha inclinação a ele. Preciso te dizer que, a cura, o abrigo, o consolo estão intrincado com o meu relacionamento com ele e que por sua vez, só acontece com devoção e com um estilo de vida baseado em minha inclinação ao quebrantamento e entrega diária - um jeito de olhar as coisas a partir de quando eu tiro os joelhos do chão com a certeza de que tudo está na mão dele e qualquer coisa que aconteça se sucederá sob as asas dele com o privilégio de eu sentir a sua presença comigo. Uma coisa eu posso garantir, Deus nunca estará ao meu serviço, porém ele sempre estará comigo e é melhor sorrir e chorar no colo dele do que apenas sorrir longe dele.

Dante e Kafka, vocês pintaram a pior parte do ser humano, sua pequenez, seu inferno, seu preconceito. Apesar de nada mentirem, a boa nova é: Cristo reconciliou o mundo, logo, ele resgatou-nos sem imputar pecado algum e com a promessa de tirar toda dor, todo sofrimento, toda injustiça.

Vitor Hugo, Molière, a vocês, digo o seguinte: somos discrepantemente iguais, ou melhor, viemos do mesmo lugar e marchamos para o mesmo lugar. Em existência, nos diferenciamos até o dia em que ficamos a mercê do sofrimento, da doença e por fim, da morte. Um fato: vale a pena, manter uma displicente relação eqüidistante - eu e ele - conquanto saibamos quem ele é e o quanto nós precisamos e dependemos dele?

Vladimir Nabokov, Guimarães Rosa e Graciliano, eu volto daqui a pouco. Se orar é conversar com o pai, acrescento que orar é viver, é nascer de novo todos os dias, é anelar e ser visitado constantemente e intensamente pelo Espírito de Deus.

É preciso, aos que tem fé, voltar a ter devoção a Deus. A devoção não é uma equação que serve de acesso a nossa realização pessoal. Devoção é apenas o teto que encobre Deus e o Homem e debaixo deste teto, nossa vida ganha uma dimensão que na verdade, apenas tange aquilo o que ele disse que provaríamos se assim crêssemos.

Na vida, há tempo para tudo e acabamos tornando nosso momento devocional, híbrido e insignificante. Invertemos as polaridades de prioridades e acabamos nos sucumbidos em nossa procura a Deus em meio a nossa construção de crença e vasculhos intelectuais.

Que possamos moldar nossa rotina a partir de uma vida cheia de oração e amor pela leitura bíblica porque nela, conhecemos mais daquele que está conosco diariamente.

Que possamos orar sem cessar a fim de sermos surpreendido pelo toque de Deus que, por conseguinte, pode nos levar a sermos usados de um modo especial e efetivo para o bem de alguém. Pois o propósito de Deus ao Homem é que ele cuide um do outro e que veja no próximo, o rosto de Cristo. E isso não é uma confissão positiva “Cristo habita no meu irmão”, é na verdade, um olhar que permite ver Deus em todas as coisas, assim como todas as coisas estão nele através de uma lente que só é dada pela oração, na intimidade, no muito andar junto, no hábito constante de devocionalidade. Quem ora, quem o busca, trás consigo o céu assim como debanda para lá através da fé, comunhão e uma vida diferente que se estabelece aqui, em solo humano.

Que possamos ter mais habito de orar ante a arte de ler e escrever, compor e interpretar, trabalhar e estudar, pregar e ensinar. Quem quiser chegar a Deus na eternidade, provando desde aqui, a sua doce presença e intervenção, que comece sua devoção agora. Um dia todos nós estaremos na presença dele e certamente ele dirá para alguns: “eu quis usar você e você quis me usar ou não me buscou. Você viveu assim, sem pulsação, apenas vendo e ouvindo falar do que faço na vida dos outros, porque você apenas me colocou num bonito altar de comodismo e crença.”

Duas coisas que nós nunca teremos domínio sobre o assunto: o tamanho de Deus e o que Deus pode fazer por nós, em nós e através de nós.

Busque-o enquanto se pode achar.

Se você quiser, comece sua devoção agora:
O Espírito de Deus/Sala do Trono

4 comentários:

Débora Garcia Tavares disse...

Legal o seu blog.
Gostei do nome.
Você faz juz a ele.

Jota disse...

Putz, mano... genial! Tô indo orar. Tchau.

Will disse...

Pqp, fantástico!!!!!!!

Laion Monteiro disse...

Lindo.