O Divórcio

Frankenstein (1931 no filme de James Whale), romance de terror gótico, de autoria de Mary Shelley


                                                                 A chave hermenêutica é o divórcio

A maneira perfeita de deixarem Deus perfeito foi o divórcio com velho testamento. Inauguraram o Jesus sem raiz de Davi. A historicidade evolutiva e que desemboca em Jesus é valida quando se encontra depreciada até sua total anulação. Já não existe a necessidade de ler o velho com o novo, uma vez que o velho não passa de um embuste. Olhar para o velho, através de Jesus, não é mais suficiente. A lei, apesar de, em Cristo, encontrar o seu fim - onde toda a velha aliança se caduca – e apesar de toda a saga mítica-arcaica, revelada as nações primitivas, como um vislumbre da clássica e colossal Queda do Homem e do resplendor do Filho do Homem, estão esfarelando toda a raiz hebraica para dar matizes a um Deus onde sua raiz possa ser simplificada ao conceito desejado de seu criador.


Se a tradição judaica é um embuste, para que crer que a morte do filho do Homem, representa um status remissivo? Se a herança de reconciliação de Deus com o Homem-caído é um engodo, por que crer que haja pecado germinado no seio da humanidade desde a primeira consciência ambulante? Há quem diga que povos antigos usaram o nome de Deus para cometer genocídios, bem como, dizem que o sacrifício, apesar de ser abominado por Deus, foi adotado por Ele a fim de se relacionar, na primitividade do Homem, com o próprio sacrifício a ponto de oferecer o seu filho Jesus. Isso choca e faz muitos queimarem o velho testamento.

Nós não conseguimos ser deuses nem de nós mesmos, por que queremos erguer um Deus para todos? É instintivo o quanto o ser humano precisa podar e moldar a história de sua fé para apresentar algo mais moderno, vigencial e cíclico. Não é cabível, em nosso tempo, admitir que Deus se relacionasse respeitando a cultura de povos bárbaros e arcaicos, em tempos de Moisés e Abraão. Que dirá da admissão de um Deus que se relacione com povos que possuam outras tradições, ontem ou hoje. Deus nunca foi bárbaro, o Homem é quem foi e continua a ser, em alguns aspectos. Choca-se quem cruza culturas e épocas.

Não temos anacronia na veia para assimilar sem ficarmos chocados com eqüidistância da cultura e das consciências. Queremos ser humanistas em tempos bárbaros e, como ocorre hoje, queremos ser bárbaros em tempos humanistas. Com isso, jogamos fora a velha tradição mítica e evolutiva e inauguramos uma pela tradição da vigência, onde erigimos um Jesus conforme achamos mais palatável, atenuante e explicável. Bane-se tudo que remete a sangue e enxerta de flúor cálido da poesia e do romance. Já dizia o poeta grego Homero, que “na verdade, poucos filhos são semelhantes ao pai; a maioria é inferior, poucos são melhores que ele”.

O pós-bárbaro tinha razão. Hoje, nós, filhos dum mundo velho, onde dividimos terras totalmente assoladas e repartidas por milhares de povos que nos antecederam, queremos ser os conclusivos da boa interpretação. Confiamos que nossa evolução é a chave hermenêutica para entender tudo o que já foi vivenciado em nosso mundo velho. É como sentirmos os donos do universo por termos descoberto os anéis de Saturno. Não nos colocamos em nosso lugar. Não respeitamos a velha sabedoria, que ainda que caduca e obsoleta, trás consigo, um signo entre Deus e o Homem e que deve ser preservada. Jogamos as múmias e derrubamos as pirâmides de uma saga milenar como forma de compreender o presente e o futuro, sem saber que o passado diz muito de nós e de coisas que estão para além de nosso entendimento.

Continue. Queimem o velho. Institua uma religião de Jesus sem a sua raiz a fim de ser atual para os atuais, porém alienados de uma saga que abrange diversos períodos e culturas. Apague da antecedência de Jesus de Nazaré, tudo aquilo que te choca, como as guerras e os sacrifícios. Não restará nada para você aproveitar e então se torne mais um Victor Frankenstein ao criar mais um Jesus. As sombras dos ancestrais, as epopeias que fustigaram a grande locomotiva do conhecimento e da consciência, nunca serão testemunhas.

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